Para os argentinos que perguntam: Como é morar em Florianópolis?

Florianópolis para imigrantes paraíso ou inferno? - Português

Claudio Budnikar a quinta-feira, 10 abril, 2014 a (s) 10:41

Aproximadamente no ano  2001, com 40 anos, esposa e dois filhos pequenos, cansado de muitas coisas que vivemos (junto com minha família) em Buenos Aires, Argentina, sendo professor de artes marciais e programador de computadores, decidimos nos mudar para o Brasil.

Passávamos ferias há vários anos em Itapema e Curitiba.A primeira a descartamos por que há 12 anos, no inverno parecia a Sibéria.
Curitiba também foi descartada por que não apareceu nenhuma oportunidade laboral.

Viemos para Florianópolis por que apareceu uma oferta laboral.

Antes de vir, andando pela rua Florida em Buenos Aires, encontrei um amigo engenheiro com quem havia trabalhado alguns anos antes e que sabia que tinha ido a morar em São Paulo, no Brasil. (Ele era de Vicente López, Zona Norte Bs. As.)

Desesperado, perguntei-lhe que por que havia retornado, queria que me contasse tudo!

Ele me falou, já tem emprego?, sua família concorda?

Se for assim, então vai, eu não vou lhe dizer nada!
Todo mundo tem que fazer a sua própria experiência e vai ser diferente para cada um.

Na época, eu odiei ele, o cara tinha todos os dados que eu precisava e simplesmente não me disse coisa nenhuma.

Com o tempo percebi que ele estava certo.

Hoje vejo as mensagens em vários grupos do FB, como é que é?  Vou conseguir emprego? é bonito? é seguro? é estável? Preciso saber o idioma? a papelada é difícil de se obter?

Tudo bem, é natural quer saber e prever, mas também vejo muitas vezes, os mesmos participantes do grupo "zangados" por que alguém avisou que as coisas nunca são exatamente o paraíso parece ser quando estiveram de férias, para morar pode ser bem mais difícil, para vir com a família, sem domínio da língua, sem uma "reserva para emergência" em dinheiro, sem uma profissão que tenha demanda real (não o que “vendem” os jornais e agências de publicidade do governo da vez, muito menos ainda os que com 2 ou 3 meses morando aqui oferecem "lições de vida" e conselhos sobre qualquer tema) pode ser bastante difícil e além disso, frustrante.
Nos primeiros 10 anos de vida aqui realmente não queria saber coisa nenhuma da Argentina e dos argentinos, agora, embora hoje saiba que a maioria (não todas) das frustrações e problemas que tinha, estavam dentro de mim e, portanto, também viajariam comigo  onde for que eu fosse.

Por outro lado, buscava a "energia do pioneiro", aos: 40 anos começar de novo quase do zero em um novo lugar em uma sociedade que sabia diferente (embora enganosamente similar).

Eu sabia que, se ficava lá, onde já tinha casa, apoio da família, amigos e domínio das costumes, as coisas continuariam iguais e verdadeiramente desejava uma mudança.

Talvez esse "espírito pioneiro" de vir até aqui sem documentação definitiva (naquela época não era fácil de conseguir residência legal) sem um emprego estável, de passar a morar de aluguel, de nunca discutir com ninguém por mais que tivesse 100% da razão por saber uma queixa na policia podia acabar em uma deportação forçada, começar a pensar novamente se poderia treinar (ou ensinar) minhas adoradas artes marciais, colocar meus filhos em novas escolas e nos apoiar mutuamente com minha esposa, dividendo projetos e obrigações.

No final tudo deu certo,  foi uma boa experiência, mas como eu disse antes "é a nossa história" não precisa ser exatamente assim para os demais, cada um terá a sua e vai depender muito do que  procure, da sua situação de início e também da SORTE.

A Grande Florianópolis (continente, ilha, São José, Biguaçu, Palhoça e outros) tem quase 1 milhão de residentes permanentes.

Tem crescido muito nos últimos 10 anos, com pessoas que vêm de todo o Brasil e o Mercosul atraídos pela inegável beleza natural e a propaganda da qualidade de vida, vagas de emprego fartas e outras promessas, muitas vezes é assim, mas outras são simplesmente anúncios do governo e empresas que pretendem “vender” esses conceitos para melhor comercializar seus produtos e serviços.

Na verdade, por ser também a capital do estado, casa de todos os funcionários, políticos e pessoal relacionado ou dependente da administração pública que recebem salários (muitas vezes astronômicos) e também pelo fato de ser um dos locais de praias e ferias preferido dos grandes empresários de São Paulo (que buscam segurança e tranquilidade) e dos donos e empregados de grandes empresas (Tigre, WEG, Duas Rodas, Malwee, Hering, etc etc.) faz que o nível sócio econômico seja bastante alto.

O fato é que tudo isso também cria um intenso fluxo migratório resultando em uma oferta de produtos e serviços altíssima:

As universidades formam anualmente milhares de profissionais em áreas que vão desde o mais profundamente abstrato até a mais refinada tecnologia. Sendo que geralmente, os formandos recebem  experiências feitas no exterior (a universidade trabalha muito com isso)

Tem de  tudo na cidade, muito mais do que é possível consumir.

Você quer jogar hóquei?
Pesquise um pouco e vai encontrar um estrangeiro que lidera um time de garotas.
Rugby? Tem equipes formadas por técnicos do Uruguai, Argentina, Portugal e Irlanda.
Massagens e "auto-ajuda"? O que você quiser: massagem terapêutica, shiatsu, reiki, Alexander, etc. etc.
Teatro, Cultura, Artes Marciais, Artes em geral? Centenas de escolas independentes e professores em todos os lugares.

Vamos fazer Pizza? (dizem que os Brasileiros não sabem ...)
São Paulo é o segundo lugar no mundo onde mais pizzas são comercializadas e consumidas. (E Florianópolis está cheia de paulistas)

O Brasileiros são ruins em ciências abstratas?. O Instituto de Matemática Aplicada do Rio de Janeiro (sim lá onde o carnaval acontece) trouxe há décadas para ministrar seminários o inventor da teoria do caos e hoje ainda é um constante gerador de  estudos e especialistas em matemática e lógica.

Além de tudo isso, tem que competir com os serviços públicos (ou quase públicos) do tipo SESC, SENAI e outros que constantemente oferecem cursos, muitas vezes de graça e com uma infraestrutura enorme e incrível que é muito difícil de imitar.

Resumindo, não é que você não possa fazer coisa nenhuma, só tem que aprender, se adaptar e encontrar o seu lugar, mas ele pode chegar através de estradas sinuosas e que dependem de cada um, da sua história anterior, necessidades, capacidade e sorte também.

Espero ter colaborado com esta mistura de "estudo formal" com "história pessoal", para que aqueles que pedem informação e precisam saber possam fazer suas escolhas e não fiquem tão zangados quando alguém lhes advirta que também existem dificuldades.

A maioria da gente que avisa das dificuldades não tem o intuito de desencorajar ninguém e geralmente tem a melhor intenção.

Por exemplo: evitar algo bastante comum,  aqueles que vem para “obter o sucesso já" e 3 meses depois aparecem pedindo esmola, hospedagem ou ajuda para voltar a sua antiga moradia, muito pior ainda, quando eles têm famílias que dependem deles.

Resumindo: Florianópolis não é nem o paraíso nem o inferno.
É um lugar cheio de oportunidades e concorrentes (seja no que for)
E é sempre bom lembrar que competir sem um domínio completo das relações sociais e da linguagem é bastante difícil.

As vezes ser um estrangeiro é uma vantagem e dá a possibilidade de diferenciar-se dos outros (e em alguns campos positivamente)

Claudio