Estrategias das Artes Marciais, Idiomas, Sotaques e Comunicação
Suki nas Artes Marciais de origem japonesa é provocar uma abertura na guarda de nosso adversário numa luta.
Quando dois adversários estão frente a frente se estudam e procuram alguma abertura tanto na parte física como na mental.
Não se parte para o ataque sem ter gerado (ou percebido) esse “suki” na guarda do outro.
1) Os iniciantes nem ligam para nisso.
2) Os que tem alguma experiência usam o suki para depois atacar com todas as suas forças no momento e lugar onde o adversário não vai puder reagir.
3) Os verdadeiramente experientes, provocam o suki no exato momento em que o adversário começa seu ataque.
Fazendo isso, provocam uma separação entre a inercia física do movimento de ataque do outro (se ele está indo numa direção a inercia o obriga a continuar no mesmo sentido) e o que sua mente quer fazer por causa de ter percebido uma atitude inesperada no outro ao inicio de seu ataque.
Essa é a verdadeira definição do suki, fazer que o outro não possa parar nem modificar seu ataque, mas provocar uma dúvida nele.
Nesse caso, o ataque perde potencia e é bem mais fácil de neutralizar ou conduzir na forma que o defensor desejar.
Tendo ainda a vantagem que o atacante “sente” que está sendo conduzido para onde realmente queria ir, mas percebendo com surpresa que o outro neutraliza seu ataque quase sem nenhum esforço.
Olhado de fora parece que o experto é como um centro fixo e que o atacante vai girando em volta dele como um planeta vira em torno do sol.
O experto não perde “seu centro” e o atacante “dividido” entre o que quer fazer e o que está realmente fazendo, não tem nem equilibro nem potência para mudar a situação.
Depois desta pequena introdução à “estrategia das Artes Marciais” vamos ao tema que nós interessa:
Não será que quando perguntamos alguma coisa em português, mas com um forte sotaque estrangeiro ou com algumas palavras corretas, mas não muito usadas na fala coloquial do pais ou dessa região, estamos provocando de forma não proposital um “suki” na pessoa com quem tentamos falar?
A surpresa gerada pelo ritmo, cadencia ou forma de montar a pergunta, faz que quem escuta fique dividido entre pensar o que você falou e entre muitas outras perguntas do estilo: “de onde será este cara?, italiano?, alemão?, que está falando?, etc.”
Isso provavelmente vai fazer que ele não consiga (ou não deseje) responder sua fácil pergunta ou pior ainda, vai responder qualquer coisa ou dizer: Eu não falo seu idioma.
Nas Artes Marciais é muito estudada a forma de responder a uma solicitude que é identificada como agressiva: Geralmente tem duas opções: Lutar ou Fugir.
No caso que nos interessa, LUTAR é responder qualquer coisa, com o intuito que o outro continue se esforçando para ser compreendido e assim puder responder melhor, e
FUGIR equivale a dizer (totalmente convencido) “Eu não compreendo o que o senhor está falando” (ponto final)
Também é importante o que ambos desejam:
No caso de perguntar por uma rua para um atendente de um banca de jornais:
O atendente quer VENDER seus jornais.
Você quer SABER onde fica una rua.
São dois objetivos diferentes e embora você seja que pergunta, o poder está nas mãos do atendente que por trabalhar no bairro provavelmente tenha a informação que você necessita.
Se você pergunta para ele direta e inesperadamente é provável que não obtenha resposta por nenhum dos caminhos, se ele decide fugir, qualquer esforço que você fizer para se explicar melhor só vai ter por resposta “não compreendo o senhor” se decide lutar, vai responder alguma coisa meio difusa como “lá mais adiante” e provavelmente não vai fazer muito esforço em lembrar, depois de compreender que você precisa dele mais não vai comprar nada da sua banca.
Mas tudo pode mudar para melhor se você antes de lançar sua pergunta diretamente, inicia com um “Bom dia”, brinda ao atendente com um sorriso sinceiro e tenta falar alguma coisa corriqueira sobre alguma manchete do dia, antes de fazer sua pergunta.
Isto não é uma receita pronta com 100% de sucesso garantido.
Existem múltiplas variáveis em jogo, o atendente pode estar cansado que todo o mundo pergunte coisas para ele, pode ter brigado com um cliente anterior, pode estar com enxaqueca ou simplesmente sem vontade de ajudar a você ou sem saber onde fica a rua que você perguntou.
O que realmente é interessante é compreender usando um outro modelo (estrategia marcial neste caso) isso que tantas vezes nos acontece, como que uma recepcionista não compreenda quando entrando num prédio as 7 da manhã falamos para ela Bom Dia (que outra coisa poderíamos estar fazendo se não estar cumprimentando-la, nessa situação? )
Ou quando solicitamos uma peça “Amarilha” para um atendente que vai nos oferecer todo um leque de cores antes de chegar ao AMARELO (as palavras azul. vermelho, marrom, verde, cinza ou roxo se parecem em algo com Amarelo? Amarilho não tem quase o mesmo som que Amarelo?)
Sim, para quem acontecem estas situações parece inacreditável e termina pensando mal do outro ou pensando que estão “tirando sarro” dele, mas a explicação pode ser outra.
No Brasil tem um bordão bastante conhecido que diz: Gentileza gera gentileza.
Um sorriso antes de perguntar, um pouco de bate papo descontraído, paciência, postura e atenção podem fazer “milagres” na comunicação.
Claudio Budnikar
Programador de Sistemas. Professor de Artes Marciais. Editor do site Hispanoluso www.hispanoluso.com.br - Pesquisador associado no Instituto de Governo Eletrônico, Inteligências e Sistemas – i3G - contato: claudio.hispanoluso@gmail.com

